- Relatório cita possível má conduta de Javier Milei
- Libra gerou perdas a mais de 114 mil carteiras
- Investigação liga Libra e KIP a padrões semelhantes
A comissão de investigação da Câmara dos Deputados da Argentina divulgou um relatório final contundente sobre o colapso da criptomoeda Libra, apontando que o presidente Javier Milei ofereceu “colaboração essencial” para a ascensão do projeto. O documento recomenda que o Congresso avalie se o chefe do Executivo cometeu “má conduta no cargo” ao promover o token, que prometia impulsionar pequenas empresas, mas acabou gerando prejuízos em massa.
Segundo o relatório, Milei utilizou sua conta pessoal no LinkedIn para promover a Libra, antes de apagar a postagem após oito carteiras associadas à equipe do projeto retirarem cerca de US$ 107 milhões. A comissão afirma que o movimento ampliou de forma artificial a demanda inicial pela criptomoeda, o que pode ter contribuído para o impacto financeiro sobre investidores.
Com 200 páginas, o documento — intitulado “$LIBRA NÃO FOI UM EVENTO ISOLADO” — destaca que as perdas não ocorreram apenas por falhas de supervisão, mas podem ter sido resultado de uma “vontade deliberada de burlar controles institucionais”. O resumo entregue aos parlamentares aponta que Milei teria usado o peso da Presidência para legitimar o suposto esquema. “Sem seu tweet, a $LIBRA não teria tido o volume de compras que teve”, diz um trecho citado pela comissão.
O presidente nega irregularidades e chegou a dissolver, em maio, a força-tarefa criada por seu próprio gabinete para investigar o caso, poucos dias após um juiz solicitar ao Banco Central o acesso às contas bancárias dele e de sua irmã, Karina Milei. Paralelamente, Milei e os fundadores da Libra, entre eles o empresário norte-americano Hayden Davis, enfrentam processos na Justiça argentina e uma ação coletiva movida pela Burwick Law, especializada em golpes envolvendo criptomoedas.
O relatório estima que 114.410 carteiras sofreram perdas negociando Libra. Para os investigadores, o episódio repete um padrão iniciado no fim de 2024, quando o Protocolo KIP — igualmente promovido por Milei — perdeu liquidez logo após receber validação pública. A análise on-chain mencionada aponta que o operador Manuel Terrones Godoy converteu tokens KIP em USDT e enviou fundos ao associado Mauricio Novelli no dia do lançamento.
O documento também cita outras promoções anteriores do presidente, como o jogo NFT “Vulcano” e a empresa CoinX, alvo de investigação desde 2022. Durante a apresentação do relatório, parlamentares do partido de Milei compareceram, mas rejeitaram as conclusões, alegando falta de apoio para avançar com o texto, sem apresentar alternativas.














