- Stablecoins competem por depósitos bancários nos Estados Unidos
- Bancos regionais enfrentam maior risco de perda de liquidez
- Lei GENIUS redefine regras para stablecoins lastreadas em dólar
Os grandes bancos dos Estados Unidos acompanham com atenção a expansão das stablecoins lastreadas em dólar e seus possíveis efeitos sobre o sistema financeiro tradicional. Uma análise recente do Standard Chartered indica que, até 2028, o setor bancário pode perder mais de US$ 500 bilhões em depósitos, à medida que esses ativos ganham espaço em pagamentos, liquidações e produtos financeiros digitais.
O relatório aponta que os bancos regionais estão entre os mais vulneráveis. Essas instituições dependem fortemente de depósitos para sustentar suas operações e proteger a margem de juros líquida, indicador que mede a diferença entre o custo de captação e o retorno obtido com crédito. Para o Standard Chartered, a migração gradual de serviços financeiros para infraestruturas baseadas em stablecoins representa um desafio estrutural ao modelo bancário atual.
A discussão ganhou impulso com a aprovação da Lei de Orientação e Estabelecimento da Inovação Nacional para Stablecoins nos EUA, conhecida como GENIUS Act. O texto estabeleceu uma estrutura federal para emissão e uso desses ativos, reconhecendo modelos lastreados em dólar e limitando alternativas algorítmicas vistas como mais arriscadas. A nova regra foi bem recebida por empresas de criptomoedas, que vinham enfrentando maior escrutínio regulatório.
Apesar disso, representantes do setor bancário afirmam que a legislação deixou lacunas relevantes. Embora a lei impeça emissores de stablecoins de pagar juros diretamente, existe a possibilidade de que corretoras e plataformas digitais criem mecanismos indiretos de remuneração. Na visão dos bancos, esse tipo de estrutura amplia a concorrência por depósitos e enfraquece a base que sustenta o sistema de reservas fracionárias.
Preocupações semelhantes já haviam sido levantadas por executivos do setor financeiro. No início do ano, o CEO do Bank of America, Brian Moynihan, afirmou que entre US$ 5 trilhões e US$ 6 trilhões em depósitos poderiam migrar para stablecoins caso instrumentos com rendimento sejam amplamente autorizados pelo Congresso. Esse volume representaria até 35% dos depósitos bancários comerciais dos Estados Unidos.
Do lado das empresas de criptomoedas, o argumento é de coexistência. Executivos defendem que stablecoins podem operar ao lado do sistema financeiro tradicional, de forma semelhante aos fundos do mercado monetário, sem provocar instabilidade no crédito. Jeremy Allaire, CEO da Circle, declarou que a restrição ao pagamento de rendimentos seria anticompetitiva e limitaria a inovação.
O tema segue em debate em Washington. O Comitê Bancário do Senado adiou recentemente a votação de um projeto mais amplo sobre a estrutura do mercado de criptomoedas para avaliar riscos ligados à saída de depósitos. A discussão ocorre paralelamente ao avanço regulatório que permitiu à Tether lançar a USA₮, stablecoin voltada ao mercado americano sob as diretrizes da Lei GENIUS.














