- Hong Kong emite licenças para stablecoins em março
- China mantém proibição rígida às criptomoedas
- HKMA analisa 36 pedidos de stablecoins
Hong Kong segue determinada a estruturar seu mercado de stablecoins, mesmo diante das reservas históricas de Pequim em relação às criptomoedas. A Autoridade Monetária de Hong Kong (HKMA) indicou que poderá anunciar já em março a primeira rodada de licenças para emissores, consolidando um novo capítulo para o setor local de ativos digitais.
“Esperamos que até março possamos tomar uma decisão”, afirmou Eddie Yue, diretor executivo da HKMA, durante reunião no Conselho Legislativo em 2 de fevereiro. Segundo ele, o regulador examina um grupo inicial de 36 pedidos para emissão de stablecoins, após a entrada em vigor da Lei de Stablecoins aprovada em maio e implementada oficialmente em agosto.
A legislação estabelece que qualquer entidade que emita stablecoins no território, ou que atrele esses ativos ao dólar de Hong Kong, deve obter autorização formal. A medida é vista como tentativa de criar um ambiente regulado para ativos digitais, sem confrontar diretamente a posição restritiva do governo central chinês.
Especialistas avaliam que o movimento de Hong Kong funciona mais como teste controlado do que como mudança estrutural na política de Pequim. Jordan Wain, líder de consultoria política da Chainalysis, destacou que as stablecoins já representam mais da metade do valor das transações registradas diretamente em blockchains, tornando-as “fundamentais para o ecossistema cripto”.
Entre os possíveis casos de uso apontados pela HKMA estão pagamentos transfronteiriços e sistemas de depósitos tokenizados para bancos internacionais. Empresas interessadas no regime de licenciamento afirmam que stablecoins atreladas ao dólar de Hong Kong podem permitir “reembolsos mais rápidos, pagamentos internacionais mais ágeis e taxas de câmbio mais transparentes”.
Apesar disso, o contexto político impõe limites claros. Pequim mantém desde 2021 uma proibição total de transações com criptomoedas, medida motivada por preocupações com volatilidade, atividades ilícitas e controle de fluxos de capital. Relatos recentes indicam que reguladores chineses teriam demonstrado desconforto com o plano de Hong Kong, especialmente diante do risco de ampliação da circulação de ativos digitais fora do alcance regulatório central.
Monique Taylor, da Universidade de Helsinque, avaliou que “As stablecoins desafiam o controle estatal [de Pequim] sobre o dinheiro, os pagamentos e os fluxos de capital e, portanto, não se encaixam bem no modelo de governança monetária centrado no Estado chinês, que prioriza a supervisão e a estabilidade financeira interna”.
Além das preocupações internas, há também receios relacionados à predominância de stablecoins lastreadas em dólar, como USDT e USDC. “O sistema monetário chinês reconheceu que as stablecoins lastreadas em dólar correm o risco de reforçar o domínio do dólar americano”, afirmou Taylor.
Para analistas, Hong Kong busca usar sua autonomia sob o princípio de “um país, dois sistemas” para demonstrar que stablecoins podem operar sob supervisão rigorosa, preservando espaço para inovação em criptomoedas e iniciativas ligadas à Web3, sem romper com as diretrizes mais amplas definidas por Pequim.












