- Computação quântica ameaça criptos clássicos, não pós-quânticos
- Padrões NIST reforçam segurança das criptomoedas
- Estratégia híbrida protege blockchain na transição quântica
Um debate recente reacendeu preocupações sobre o impacto da computação quântica no setor de criptomoedas, após alegações de que a segurança atual poderia colapsar diante de avanços tecnológicos. No entanto, especialistas do campo matemático indicam que parte dessas interpretações mistura hipóteses teóricas com evidências já consolidadas.
Entre as vozes mais técnicas está Edoardo Persichetti, pesquisador envolvido diretamente no desenvolvimento de padrões internacionais voltados à segurança digital no cenário pós-quântico. Segundo ele, a ameaça existe, mas não da forma ampla como tem sido apresentada.
“A ameaça dos computadores quânticos à criptografia de chave pública atual é bem definida e específica”, afirma. Ele destaca que o impacto está concentrado em algoritmos clássicos amplamente usados no ecossistema de criptos, como RSA e ECDSA.
De acordo com o especialista, isso ocorre por causa do algoritmo de Shor, capaz de resolver problemas matemáticos como fatoração de inteiros e logaritmos discretos com eficiência em ambientes quânticos. Esses problemas são a base de muitos sistemas de segurança usados atualmente.
Apesar disso, ele reforça que esse avanço não compromete automaticamente todas as soluções existentes. “Crucialmente, o algoritmo de Shor não se aplica aos problemas complexos subjacentes à criptografia pós-quântica. Atualmente, não existe nenhum algoritmo quântico conhecido que proporcione uma aceleração significativa contra esses problemas.”
Essa distinção é central para entender o estágio atual da segurança em blockchains. Segundo Persichetti, afirmar que toda a base matemática das criptomoedas está em risco é uma interpretação equivocada do cenário técnico.
Outro ponto levantado no debate envolve o papel do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST), responsável por selecionar algoritmos considerados seguros para o futuro digital. Críticos sugerem que essas escolhas seriam baseadas em “suposições”.
Para o especialista, essa visão ignora o processo rigoroso que levou à padronização. “O artigo descreve os esquemas de assinatura selecionados pelo NIST, como ML-DSA, FN-DSA e SLH-DSA, como ‘melhores palpites’. Isso é injusto e impreciso.”
Ele explica que esses algoritmos passaram por mais de uma década de testes e análises por especialistas de diferentes países. Estruturas consideradas frágeis, como Rainbow e SIKE, foram descartadas ao longo do processo.
“O artigo confunde a vulnerabilidade dos esquemas clássicos com uma incerteza genérica sobre todas as suposições de dificuldade criptográfica, o que é simplesmente incorreto”, acrescenta.
Além da discussão técnica, Persichetti chama atenção para o risco de adiar decisões estratégicas. Segundo ele, a ameaça já está em andamento, especialmente em práticas conhecidas como “coletar agora, descriptografar depois”.
“A tolerância implícita do artigo em relação ao atraso é perigosa”, afirma. Ele destaca que agentes mal-intencionados podem armazenar dados criptografados hoje para decifrá-los no futuro com máquinas mais avançadas.
Outro fator relevante é o tempo necessário para adaptar infraestruturas globais. Sistemas de grande escala, como blockchains e redes financeiras, podem levar anos para migrar completamente para novos padrões.
Como alternativa, o especialista defende a adoção de modelos híbridos, combinando tecnologias atuais com soluções pós-quânticas. “Construções híbridas que combinam um esquema clássico com um pós-quântico oferecem defesa em profundidade.”
Essa abordagem permite que redes blockchain mantenham compatibilidade enquanto aumentam a segurança gradualmente. No entanto, ele faz um alerta sobre a adoção de soluções não testadas.
“Usar esquemas não padronizados e propostos experimentalmente em produção simplesmente por serem menores é exatamente o tipo de decisão que leva à quebra da criptografia.”
Segundo ele, parte da indústria de criptomoedas ainda prioriza desempenho e eficiência em detrimento da segurança, o que pode gerar vulnerabilidades críticas no longo prazo.
Por fim, o especialista descarta a ideia de que uma solução “perfeita” ainda está por surgir. “Não existe um roteiro confiável para esquemas de assinatura pós-quântica significativamente ‘melhores’ além do que está atualmente padronizado.”












