A proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 20% sobre cargas que atravessam o Estreito de Ormuz está levando analistas a reavaliar as perspectivas para o mercado global de petróleo. Embora os detalhes da medida ainda não tenham sido divulgados, especialistas avaliam que o maior impacto não está no custo adicional da tarifa, mas no aumento do risco geopolítico em uma das rotas marítimas mais importantes para o abastecimento mundial.
No início deste mês, a expectativa predominante era de que a oferta global de petróleo superasse a demanda nos próximos trimestres. Agora, esse cenário passou a ser questionado diante da possibilidade de novas interrupções no fluxo de embarcações pelo estreito, responsável pelo transporte de cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo.
"O mercado esperava um aumento da oferta após o memorando de entendimento firmado entre Estados Unidos e Irã no mês passado. Esse cenário mudou", afirmou Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, em entrevista à CNBC.
Segundo Lipow, um fechamento do Estreito de Ormuz colocaria em risco qualquer expectativa de excedente no mercado. Caso a tarifa seja aplicada diretamente às cargas de petróleo bruto, ela poderá acrescentar aproximadamente US$ 16 por barril ao custo do petróleo transportado pela região, embora a Casa Branca ainda não tenha explicado como a cobrança será implementada.
A reação do mercado foi imediata. Os contratos futuros do petróleo WTI para entrega em agosto avançaram 2,23%, para US$ 79,90 por barril, enquanto o Brent, referência global, subiu 2,14%, para US$ 85,11, ampliando os ganhos registrados na sessão anterior.
Para o Citi, a proposta também aumenta significativamente os riscos de uma escalada militar no Oriente Médio. Em relatório divulgado nesta terça-feira, o banco afirmou que a implementação da tarifa pode comprometer o memorando firmado entre Washington e Teerã, elevando a probabilidade de um período prolongado de preços elevados para o petróleo.
"O risco de escalada militar aumentou substancialmente caso a medida seja implementada", escreveram os analistas. Segundo o banco, também cresce a possibilidade de o Irã abandonar o acordo firmado com os Estados Unidos antes das eleições legislativas americanas, ampliando as incertezas sobre o equilíbrio entre oferta e demanda.
Mais do que o impacto da tarifa sobre os custos de transporte, investidores acompanham os efeitos que um agravamento das tensões pode ter sobre o fluxo físico de petróleo.
Henry Hoffman, co-gestor do Catalyst Energy Infrastructure Fund, afirmou que uma interrupção prolongada na navegação pelo Estreito de Ormuz poderia obrigar produtores da região a reduzir a produção caso não consigam exportar o petróleo armazenado.
Dados da empresa de inteligência marítima Kpler mostram que apenas 14 embarcações cruzaram o estreito no domingo, incluindo quatro petroleiros. Na semana anterior, o número havia sido de 37 navios, evidenciando uma forte redução no tráfego.
Segundo Hoffman, se as exportações permanecerem limitadas, os tanques de armazenamento poderão atingir rapidamente sua capacidade máxima, obrigando produtores a interromper parte da produção.
"O impacto efetivo sobre a oferta pode ser muito maior do que aquele observado apenas pelos danos à infraestrutura", afirmou.
As novas tensões também colocam em dúvida as projeções da Agência Internacional de Energia (AIE), que havia indicado na semana passada a expectativa de retorno do excedente global de petróleo até o fim de 2026. Essa estimativa, no entanto, dependia da normalização gradual da navegação pelo Estreito de Ormuz.
Ao mesmo tempo, sinais de recuperação da demanda asiática podem aumentar a pressão sobre o mercado. A Saudi Aramco reduziu recentemente em US$ 11 por barril o preço do seu principal petróleo destinado à Ásia, passando a oferecer desconto de US$ 1,50 em relação ao índice Omã/Dubai. A medida tende a estimular refinarias chinesas a elevar as compras justamente em um momento em que a confiabilidade do fornecimento do Oriente Médio volta a ser questionada.
Com a combinação de riscos geopolíticos, redução do tráfego marítimo e possível retomada da demanda asiática, o mercado passa a monitorar com mais cautela a evolução das tensões na região, que podem alterar rapidamente as perspectivas para a oferta global de petróleo nos próximos meses.

