Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, acredita que a recente pressão sobre as ações preferenciais STRC da Strategy representa uma etapa importante do atual ciclo do mercado de criptomoedas. Para ele, o movimento faz parte de um processo de desalavancagem que costuma anteceder a formação de um fundo para o bitcoin.
A avaliação ganhou força depois que o bitcoin recuou abaixo de US$ 60 mil no fim de junho, alcançando o menor nível desde 2024. Segundo Hougan, boa parte dessa pressão esteve ligada ao desempenho da STRC, instrumento criado pela Strategy para captar recursos destinados à expansão de suas reservas de bitcoin.
A STRC foi lançada com valor nominal de US$ 100 e rendimento inicial de 9% ao ano. A estrutura previa aumentos automáticos na remuneração sempre que a cotação ficasse abaixo desse valor, incentivando investidores a manterem o ativo próximo da paridade.
Durante vários meses, esse mecanismo funcionou como esperado. O rendimento chegou a 11,5%, enquanto aproximadamente US$ 10,5 bilhões foram captados, permitindo que a Strategy ampliasse significativamente suas compras de bitcoin.
Entretanto, a queda do bitcoin e das ações MSTR fez crescer a preocupação sobre a capacidade da empresa de manter o pagamento dos dividendos. Como consequência, a STRC perdeu a referência de US$ 100 e chegou a ser negociada perto de US$ 75.
Hougan considera que essas preocupações possuem fundamento, mas avalia que o mercado exagerou na reação. Segundo seus cálculos, a Strategy possui aproximadamente US$ 49,6 bilhões em bitcoin e US$ 2,6 bilhões em caixa, enquanto soma cerca de US$ 6,8 bilhões em dívidas e US$ 15,5 bilhões em ações preferenciais. Esse patrimônio seria suficiente para sustentar décadas de pagamentos caso a empresa optasse por liquidar parte de suas reservas.
Na avaliação do executivo, o principal fator de incerteza nunca foi a capacidade financeira da companhia, mas sim sua decisão de continuar distribuindo dividendos, já que o pagamento pode ser suspenso conforme decisão da própria Strategy.
Em 29 de junho, a empresa anunciou mudanças relevantes na estrutura da STRC. A partir de agora, poderá vender pequenas quantidades de bitcoin periodicamente para financiar os dividendos e deixou de aumentar automaticamente a taxa de remuneração para defender o preço de US$ 100.
Após o anúncio, tanto as ações MSTR quanto a STRC registraram recuperação. Para Hougan, elevar ainda mais o rendimento deixaria uma mensagem negativa ao mercado, especialmente porque, com o papel negociado perto de US$ 75, o retorno efetivo já havia alcançado aproximadamente 15,4%.
O diretor de investimentos também acredita que a Strategy deixará de ser a principal compradora contínua de bitcoin. Em vez disso, a empresa poderá alternar períodos de compras e vendas conforme as condições do mercado, sem necessidade de grandes liquidações de suas reservas.
Na visão do executivo, o próximo ciclo de demanda deverá ser impulsionado por investidores institucionais. Entre os fatores citados estão os ETFs de bitcoin distribuídos pelo Morgan Stanley, a inclusão do bitcoin em portfólios modelo do Wells Fargo, a reserva estratégica de bitcoin do Texas e os mais de US$ 50 bilhões acumulados em entradas nos ETFs de bitcoin desde 2024.
Ao comparar o momento atual com ciclos anteriores, Hougan afirmou que o desmonte da STRC lembra o fim do prêmio negociado pelo GBTC em 2021. Segundo ele, movimentos desse tipo eliminam estruturas excessivamente alavancadas e costumam ocorrer antes da recuperação do mercado.
Sobre o momento atual, Hougan resumiu sua percepção afirmando: "Acho que estamos nos aproximando do fundo do poço." Ele acrescentou que acompanha indicadores como o desconto da MSTR em relação ao valor patrimonial, o Índice de Medo e Ganância das Criptomoedas e as taxas de financiamento do bitcoin para identificar sinais de uma possível mudança de tendência ainda nos próximos meses.

