Neste artigo, vamos discutir:
Introdução
A evolução tecnológica frequentemente traz à tona desafios legais significativos. Os sistemas jurídicos existentes são desafiados a moldar-se e adaptar-se para abranger inovações, especialmente no domínio das tecnologias de ledger distribuído (DLTs), tais como a blockchain, e, de forma mais específica, as criptomoedas, incluindo o Bitcoin. Tais inovações exigem, muitas vezes, uma revisão abrangente ou a criação de novas regulamentações para serem adequadamente governadas.
Ao redor do globo, observa-se uma diversidade de regulamentações em torno das DLTs, com cada país adotando estratégias regulatórias variadas. Estas estratégias apresentam vantagens e desvantagens próprias, mas, de modo geral, o objetivo é estabelecer marcos regulatórios robustos que se alinhem com o desenvolvimento acelerado das DLTs. Os defensores da regulamentação de criptos argumentam que há uma necessidade premente de mais clareza legal para fortalecer a economia digital e garantir a segurança jurídica.
Por exemplo, Liechtenstein tem se dedicado à criação de um ambiente regulatório integrado para a economia digital, incluindo a emissão, custódia, exchange de criptomoedas e oferta pública de tokens dentro de um marco legal abrangente. Em contrapartida, a Suíça partiu da legislação sobre valores mobiliários e focou nas DLTs na sua legislação recentemente atualizada.
Para a Suíça, o objetivo é desenvolver um arcabouço legal que fomente a inovação e o crescimento de novas soluções baseadas em blockchain. Assim, como é regulamentado o DLT e as criptomoedas na Suíça? Este documento explora a Lei Suíça de Tecnologia de Ledger Distribuído, que visa ajustar as leis federais aos avanços na Tecnologia de Registro Distribuído Eletrônico, conhecida como Lei DLT Suíça.
O que é a Lei Suíça de Tecnologia de Ledger Distribuído?
A Suíça destaca-se como um centro financeiro chave para o setor de blockchain, servindo como sede para diversas empresas de DLT e blockchain. O renomado Crypto Valley suíço, localizado em Zug, surgiu da instalação de numerosas startups de blockchain e fintech, beneficiando-se da regulação e supervisão da Autoridade de Supervisão do Mercado Financeiro Suíço (FINMA), que começou a emitir licenças para essas empresas já em 2015.
Interessantemente, até um passado recente, a Suíça não possuía legislação específica para criptomoedas ou blockchain. Os reguladores locais adaptavam leis e regulamentos já existentes, aproveitando a flexibilidade da legislação suíça baseada em princípios.
Em 2019, o Conselho Federal Suíço iniciou um processo de consulta para adaptar a legislação federal aos desenvolvimentos acelerados no campo das DLTs. A Lei DLT suíça foi implementada em 2021, após um processo legislativo ágil e detalhado, acompanhado de uma ordem geral.
De maneira simplificada, esta legislação ajustou várias leis federais, com o intuito de consolidar as regulamentações existentes na legislação suíça. A lei DLT visa a regulamentação da tecnologia de contabilidade distribuída digital, equilibrando a proteção aos investidores e consumidores. Essa lei é aplicável a empresas, organizações e indivíduos sob a jurisdição suíça.
A legislação possibilitou o preenchimento de lacunas no arcabouço legal do país, trazendo mais segurança jurídica para os criptoativos e seus custodiantes. A Lei DLT influencia a tokenização, os investimentos e os mercados de capitais, definindo o que é um registro eletrônico e estabelecendo um marco regulatório para seu uso apropriado.
Ademais, a lei autorizou oficialmente a criação de ativos digitais baseados em blockchain, especificando como as entidades privadas devem operar e os requisitos necessários para o uso das tecnologias DLT. Por exemplo, exige-se que as empresas suíças divulguem informações sobre suas atividades, promovendo transparência.
Importante destacar, a legislação melhora as condições operacionais para empresas que utilizam blockchain, ao mesmo tempo que amplia a segurança jurídica em situações de falência. Segundo o novo marco legal, os criptoativos podem ser segregados dos demais ativos em caso de falência do custodiante.
Esta inovação legislativa permite que bancos e outras instituições financeiras gerenciem criptoativos fora de seus balanços, sem implicar em consequências negativas para seus requisitos de capital. As novas diretrizes são um estímulo à oferta de serviços de custódia de criptomoedas, especialmente por participantes do mercado financeiro.
Este artigo oferece uma visão sobre como a Lei DLT suíça abre portas para novas oportunidades e modelos de negócio, incentivando a inovação tanto para novos entrantes quanto para instituições financeiras estabelecidas.
Títulos DLT Segundo a Legislação Suíça
A legislação suíça sobre a tecnologia de ledger distribuído (DLT) resultou na modificação de dez leis federais, além de introduzir um ato geral. Destacam-se as revisões na legislação sobre prospectos de valores mobiliários, trazendo várias inovações significativas. Alterações notáveis foram feitas no Código de Obrigações, na Lei Federal de Valores Mobiliários Intermediados e na Lei Federal de Direito Internacional Privado, possibilitando a emissão de títulos representados em blockchain.
No contexto da tokenização de ativos, uma inovação jurídica relevante foi incorporada ao Código Suíço de Obrigações. Esta inovação estabelece uma categoria jurídica robusta para a tokenização de ativos e direitos, incluindo ações, títulos de dívida e outros instrumentos financeiros. Essa categoria promove a fusão entre ações e ativos digitais, habilitando o registro eletrônico de direitos que possuem atributos similares aos de títulos tradicionais, porém em formato de token. Assim surgem os “títulos baseados em ledger” ou títulos DLT.
De forma mais precisa, a Suíça agora facilita a tokenização de ativos e a tokenização de títulos para o armazenamento, transferência e comercialização de ativos. As instituições financeiras são habilitadas a transferir títulos DLT diretamente por meio de transferências técnicas em uma blockchain ou ledger distribuído. De forma inovadora, a legislação permite a transferência de títulos DLT via blockchain sem a exigência de documentação física, sendo necessário apenas o consentimento das partes envolvidas na transação.
A infraestrutura de mercado financeiro para títulos DLT expande as possibilidades de negociação, ultrapassando os limites dos intermediários financeiros tradicionais.
Instalações Comerciais DLT Conforme a Legislação Suíça
A legislação DLT suíça foi desenhada para regulamentar a utilização da tecnologia DLT na comercialização de valores mobiliários. Além da introdução dos títulos DLT, foi criada uma nova categoria de autorização para exchanges de criptomoedas, por meio de uma licença especial que simplifica a negociação multilateral de títulos DLT. Esses sistemas de negociação DLT são, em essência, plataformas baseadas em tecnologia DLT ou blockchain.
Os sistemas de negociação DLT estão sujeitos às mesmas leis aplicáveis a outros sistemas de negociação na Suíça, fornecendo serviços de negociação, compensação, liquidação e custódia de ativos baseados em DLT para participantes do mercado financeiro e clientes individuais. De forma inovadora, esses sistemas DLT permitem o acesso ao mercado não apenas para entidades tradicionais, mas também para indivíduos.
Adicionalmente, os sistemas de negociação DLT podem oferecer serviços de custódia, compensação e liquidação de títulos DLT sem a necessidade de licenças adicionais. É mandatório que todas as entidades que comercializam valores mobiliários usando tecnologia DLT se registrem junto à Autoridade de Supervisão do Mercado Financeiro Suíço (FINMA).
É crucial que o sistema de negociação DLT seja operado por uma entidade baseada na Suíça, o que sugere que plataformas totalmente descentralizadas podem enfrentar dificuldades em obter a licença de sistema de negociação DLT.
A Legislação DLT Suíça no Combate ao Crime Financeiro
À medida que a economia digital se desenvolve, a manutenção da integridade do sistema financeiro é de suma importância para a Suíça. O país está dedicado a aderir às normas internacionais para prevenir lacunas legais que possam facilitar atividades ilícitas. Neste contexto, as medidas de Combate à Lavagem de Dinheiro (Anti-Money Laundering – AML) são cruciais. Estas medidas visam prevenir que os criminosos legitimem capitais provenientes de atividades ilegais.
A Suíça defende a aplicação uniforme das regras de AML a tanto às criptomoedas quanto às moedas fiduciárias, com o objetivo de combater efetivamente a lavagem de dinheiro. Como resultado, os regulamentos existentes de AML foram substancialmente expandidos. A legislação DLT suíça aborda especificamente esta questão, introduzindo modificações na Lei de Serviços Financeiros, na Lei de Lavagem de Dinheiro (AMLA) e na Lei Bancária. Com essas alterações, os sistemas de negociação DLT passam a ser considerados intermediários financeiros, sujeitos às obrigações de AML.
A extensão da AMLA foi ampliada para incluir a prestação de serviços de pagamento em criptomoedas, expandindo assim o leque de atividades digitais que podem estar sob o escopo das regulamentações de AML. Contudo, a legislação exclui da sua aplicação fornecedores e licenciadores de software que não mantêm relações comerciais de longo prazo com clientes finais.
As inovações tecnológicas frequentemente levantam novas questões legais, enquanto as inovações jurídicas podem, por sua vez, influenciar decisões de negócios. Por exemplo, a aplicação de regulamentações AML a modelos financeiros descentralizados (DeFi), como as exchanges descentralizadas, pode levar alguns modelos de negócio DeFi a se concentrarem apenas no desenvolvimento de software na Suíça, movendo outras operações para jurisdições com regulamentações menos rígidas.
Uma Legislação DLT Pronta para o Futuro?
Diferentes países adotam variadas estratégias jurídicas para enquadrar os regulamentos DLT, com muitos reguladores ainda em fase de aprendizado sobre essas tecnologias disruptivas. A natureza geralmente lenta das instituições governamentais contribui para uma certa inflexibilidade jurídica. No entanto, com sua legislação DLT, a Suíça posiciona-se como um dos poucos países a oferecer um arcabouço legal avançado e abrangente para criptomoedas e blockchain. Notavelmente, a Suíça optou por não criar novas leis, preferindo adaptar leis existentes.
Esta estratégia promove a flexibilidade necessária em um ambiente de inovação acelerada. A lei DLT abre novas oportunidades para instituições financeiras, intermediários e indivíduos, estabelecendo uma base legal sólida para a negociação e emissão de direitos representados por tokens.
Fundamentalmente, o arcabouço regulatório holístico da Suíça abrange a custódia de ativos digitais, a emissão de títulos DLT e a negociação por meio de sistemas de negociação DLT. Este quadro legal oferece segurança aos participantes do mercado e contribui para consolidar a reputação da Suíça como um centro financeiro inovador. A possibilidade de os sistemas de negociação DLT atenderem clientes privados e de varejo promove a inclusão financeira e a adoção de novas tecnologias. Contudo, o impacto de longo prazo da legislação sobre tecnologia de registro distribuído ainda está por ser avaliado.
Conclusão
A Lei Suíça de Tecnologia de Ledger Distribuído (DLT) representa um marco significativo no reconhecimento e na regulação das inovações tecnológicas que têm o potencial de transformar o cenário financeiro global. Ao adaptar leis existentes e introduzir novos regulamentos específicos para a tecnologia DLT e criptomoedas, a Suíça solidifica sua posição como um dos centros financeiros mais inovadores e abertos do mundo. A legislação aborda de forma proativa as questões de segurança jurídica, combate à lavagem de dinheiro e inclusão financeira, estabelecendo um ambiente regulatório que é ao mesmo tempo robusto e flexível.
Ao garantir que os sistemas de negociação DLT sejam incluídos no âmbito de aplicação das leis de AML e ao promover a tokenização de ativos e direitos, a Suíça não só protege os participantes do mercado mas também estimula a inovação e a adoção de novas tecnologias. Essa abordagem equilibrada entre a regulamentação e a promoção da inovação tecnológica assegura que o país continue a ser um destino atraente para startups de blockchain e fintech, além de instituições financeiras tradicionais interessadas em explorar o potencial das DLTs.
O impacto a longo prazo da Lei DLT ainda será observado, mas a iniciativa da Suíça serve como um modelo exemplar para outros países que buscam harmonizar a inovação tecnológica com segurança jurídica e regulamentação financeira. Ao fazer isso, a Suíça não apenas fortalece seu próprio setor financeiro, mas também contribui para o avanço da economia digital global, promovendo padrões de regulamentação que poderiam facilitar uma adoção mais ampla e segura das tecnologias de ledger distribuído em todo o mundo.















