Foi mais uma semana difícil para o Bitcoin. O ativo perdeu o patamar dos US$ 60 mil e chegou a tocar uma mínima de vários anos, na casa dos US$ 58 mil, antes de reagir.
Neste Sabado 27 de junho, o BTC opera em torno de US$ 60.500, com alta de quase 2% — um movimento que o mercado tenta ler como o início de uma estabilização, e não apenas como um respiro dentro de uma tendência ainda negativa.
Três histórias explicam o clima dos últimos dias: a fuga de capital dos ETFs, a polêmica em torno da estratégia de acúmulo da Strategy (ex-MicroStrategy) e um teste de estresse que mede o que aconteceria com a empresa de Michael Saylor em um cenário extremo.
1. ETFs sangram quase US$ 1,8 bilhão
Os ETFs à vista de Bitcoin viveram uma das piores semanas de sua história, com saída líquida de cerca de US$ 1,79 bilhão. Foi a sétima semana seguida de resgates e o segundo pior desempenho desde a criação desses produtos, há cerca de dois anos e meio.
O resultado surpreendeu pela intensidade. Nas duas semanas anteriores, os saques haviam perdido força (US$ 316 milhões e US$ 227 milhões), bem abaixo do US$ 1,72 bilhão da primeira semana de junho. Mas os investidores voltaram a vender com vigor — foi a maior sangria desde o fim de fevereiro de 2025, quando o saldo negativo chegou a US$ 2,61 bilhões.
A sangria foi crescendo ao longo da semana. Começou contida — US$ 90,66 milhões na segunda e US$ 68 milhões na terça —, mas explodiu no meio do caminho: US$ 469 milhões na quarta e o pior dia, US$ 696 milhões na quinta. A sexta ainda fechou pesada, com mais US$ 444,5 milhões saindo dos fundos.
Com isso, o total acumulado de entradas líquidas recuou para cerca de US$ 51,61 bilhões — contra mais de US$ 59,30 bilhões em meados de maio. Em outras palavras, quase US$ 8 bilhões evaporaram em menos de dois meses.
Para analistas, estancar esses fluxos é praticamente uma pré-condição para qualquer recuperação mais consistente do preço.
2. Ripple x Strategy: "engenharia financeira" no banco dos réus
A queda reacendeu o debate sobre a estratégia de acúmulo de Bitcoin da Strategy. O nome mais recente a entrar na discussão foi o CEO da Ripple, Brad Garlinghouse.
Em entrevista à CNBC, ele afirmou que Michael Saylor não estaria olhando para os atributos certos do Bitcoin — e que isso agora respinga em todo o mercado. Segundo Garlinghouse, as compras da empresa "adicionaram entusiasmo na alta" e agora amplificam o movimento de baixa.
A crítica mirou especialmente a STRC, ação usada para captar recursos com a promessa de altos rendimentos, cujos lucros são reinvestidos em mais Bitcoin. Saylor evita o termo, mas o executivo da Ripple classifica a operação como alavancagem — e lembra que a STRC ainda é negociada cerca de 25% abaixo de seu valor nominal de US$ 100, algo que considera uma "acusação bastante condenatória".
Mesmo assim, Garlinghouse se disse otimista com o Bitcoin no longo prazo e sugeriu que os investidores sejam "gananciosos" diante da correção atual. Para ele, o valor duradouro de um ativo digital vem da utilidade real — tese que aproveitou para defender o XRP, voltado, em suas palavras, à velocidade e à eficiência em pagamentos internacionais para instituições.
"O valor a longo prazo de qualquer ativo digital será impulsionado pela sua utilidade." — Brad Garlinghouse, CEO da Ripple
3. Teste de estresse: até onde a MSTR aguentaria?
Em meio à desconfiança, o analista Adam Livingston publicou um teste de estresse de três anos sobre a Strategy. A conclusão é dupla: a empresa provavelmente sobreviveria a um colapso severo, mas os acionistas ordinários sairiam dilacerados.
O cenário extremo modelado:
- Bitcoin cai 55% — de US$ 59.100 para US$ 26.600 em seis meses
- O mNAV despenca abaixo de 0,50x
- Os mercados de capitais fecham
- A empresa é forçada a vender BTC para cobrir US$ 167,7 milhões em obrigações mensais
Nesse roteiro, o caixa se esgotaria no nono mês e, ao longo de três anos, a companhia venderia cerca de 115.727 BTC. A parte que Livingston chamou de "filme de terror": no fundo do poço, a ação da MSTR cairia de US$ 87,64 para apenas US$ 1,01.
Ainda assim, há uma luz no fim do túnel. Ao fim do período, a empresa terminaria com 731.636 BTC, a ação se recuperaria para cerca de US$ 51,86 e o mNAV voltaria a 1,40x. Para o analista, o risco principal não é "falência instantânea" nem "espiral da morte", mas a compressão do valor por ação enquanto os credores seniores consomem temporariamente boa parte das reservas de Bitcoin.
O que observar a partir de agora
A recuperação desta sexta-feira é bem-vinda, mas frágil. Enquanto os ETFs não estancarem os resgates e o mercado não digerir as dúvidas sobre os modelos de tesouraria alavancada, qualquer alta corre o risco de ser apenas um alívio de curto prazo.
O tom dos próximos dias deve ser ditado, mais uma vez, pelo dinheiro institucional:
- Se ele voltar, o pior pode ter ficado para trás.
- Se continuar saindo, os US$ 58 mil podem não ter sido o fundo.

